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ENTREVISTA
REVISTA CRÉDITO AGRÍCOLA
duas realidades distintas: o território do Litoral
e o território do Interior. Até aí, a avaliação
das candidaturas aos fundos pendia quase
sempre para o Litoral, desde logo porque os
critérios de mérito para aprovação incidiam na
inovação e na internacionalização. Ora, 90%
das empresas do Interior não encaixam nesses
critérios; a sua prioridade é a preservação do
posto de trabalho e alguma modernização dos
circuitos de produção. Agora, a atribuição
dos fundos passou ter em conta estes dois
contextos específicos – e não podia ser de
outra forma. E com a verba já referida, a que
acresce o programa SI2E Sistema de Incentivos
ao Empreendedorismo e ao Emprego, é
possível apoiar, de forma simplificada, a
criação e expansão de pequenas e (sobretudo)
microempresas, incidindo particularmente
na valorização e exploração de recursos
endógenos, do artesanato e da economia verde
e, ainda, no desenvolvimento de negócios em
viveiros ou incubadoras de empresas, sendo
que este programa foi entretanto majorado
substancialmente nos apoios às empresas do
Interior.
Já são visíveis, mensuráveis, resultados
desse reajustamento que separa as
águas em dois processos distintos de
candidatura aos fundos europeus,
correndo por um lado as empresas do
Litoral e, por outro, as empresas do
Interior?
Cerca de 60% das novas candidaturas
envolvendo empresas com menos de cinco
anos reporta-se a empresas provenientes do
Interior. As suas actividades têm muito a ver
com os recursos endógenos das regiões, o que
é sempre de destacar no âmbito da afirmação
do território. Ainda no conjunto de medidas
que tomámos e a merecer aqui nota destacada,
devo recordar a forte oposição que tivemos
– mas felizmente ultrapassámos – quando se
aprovou a redução de 5% das vagas no Ensino
Superior nas áreas metropolitanas de Lisboa e do
Porto, contrapondo com o aumento na mesma
percentagem das vagas no Interior. E isso é
absolutamente determinante para a valorização
dos recursos endógenos das regiões e da
necessidade de termos um ensino universitário e
politécnico que produza conhecimento ajustado
às especificadades do território e das suas
empresas.
Com o
programa
Valorizar, pela
primeira vez
em Portugal
foram alocados
70 milhões de
euros de fundos
comunitários
(verba reforçada
agora com mais
10 milhões)
exclusivamente
para valorizar
a actividade
turística no
Interior
Ao olhar o movimento de estrangeiros
que, vivendo muitos deles
do teletrabalho, se estão a fixar
com sucesso no Interior de Portugal,
o que vê?
Vejo que o nosso País tem condiçõe s
únicas para captar pe ssoas, cidadãos do
Mundo, que valorizam especialmente o
contacto com a Natureza. Mas e sse capital
natural também pode s er atractivo para
os portugueses. É nisso que e stamos a
trabalhar. Portugal tem um s ério problema
demográfico para resolver. Quando
começámos este trabalho na Unidade de
Missão para a Valorização do Interior, os
autarcas identificavam a nece ssidade de
criar emprego para fixar os jov ens; hoje, o
que falta é mão-de-obra, sobretudo para a
agricultura, o turismo, a indústria automóv el
e a indústria metalomecânica. Ou s eja,
temos sectores de actividade que já não
estão provavelmente a crescer ao ritmo
que podiam – e de viam – por limitaçõe s de
mão-de-obra. Mas o Governo está atento a
isso. Das 65 medidas aprov adas no Cons elho
de Ministros Extraordinário de Pampilhosa
da Serra, é importante de stacar a nova
perspectiva de promover o de senvolvimento
rural, agora trabalhado de f orma transversal
a todos os ministérios e não de f orma
unidireccional ou s ectorizada. Resulta daí,
só para dar um exemplo, a criação de pólos
de museus nacionais no Interior, como o já
anunciado Pólo de Chaves do Mus eu de Arte
Contemporânea de Lisboa.
Em que geografia é necessário apostar e
intervir com maior urgência?
Penso num terço do território. O Pinhal
Interior, o Norte Alentejano, algumas ár eas à
entrada do Douro Internacional e a margem
esquerda do Guadiana são, claramente,
regiões que precisam de um novo de sígnio.
Na certeza de que mais inv estimento público
tratará mais investimento privado. Mas não
tenhamos dúvidas: o Interior só s erá bem-sucedido
se pensarmos, acima de tudo e
de todos, nos jovens. A já referida escassez
de mão-de-obra começa a s er preocupante,
condicionando o crescimento de algumas
actividades e podendo vir a influenciar
decisivamente o próprio PIB Produto
Interno Bruto.